terça-feira, 20 de novembro de 2012

Passou uma semana.


Passou uma semana, desde que um simples sms e uma notícia confirmada hoje iria mudar a vida de uma pessoa por completo. Estes dias não sei se alguma vez conseguirei esquecer ou apagar da minha memória. É certo que ninguém está livre mas nunca queremos aceitar o que a vida nos reserva, pessoalmente encaro sempre como um presente envenenado, um presente que ninguém devia receber. Também é verdade que é nestes momentos que vemos quem está ao nosso lado, quem é nosso amigo mas mesmo assim evitaria sempre, ainda sou do tempo em que a palavra de uma pessoa valia alguma coisa, agora não.
Sabia já que a magia do Natal passaria ao lado e não tinha motivos para celebrar, a operação da minha mãe e a lenta recuperação assim ditaram mas depois deste acontecimento, não passa ao lado para mim é como se não existisse este ano. Não acredito no Natal, acredito nos homens e para mim o Natal é todos os dias e não alguns dias, onde se faz aquilo que se faz.

E tudo aconteceu assim e lendo o que escrevi no meu caderno de notas:
Já tinha avisado a minha mãe que iria chegar um pouco tarde, apetecia-me andar sem razão aparente, no caminho recebo um sms, quando vi o nome de quem me tinha enviado, sorri, esqueci completamente do dia que tinha tido.
“Olá Sérgio, podemos falar ...., bjs.”
Percebi que algo não estava bem, pela abreviatura de algumas palavras e pelo conteúdo da mensagem, como nunca tive pachorra para sms, nem para escrever os mesmos, preferi marcar o número, que sei de cor e já lá vão alguns anos, e aguardo. Não esperei nem 5 segundos, tive a certeza que tinha acontecido alguma coisa e tive a confirmação pela voz da minha melhor amiga.
Combinámos no nosso refúgio, estaria lá perto, a caminhada tinha que ficar para depois.
Chego antes do tempo e espero alguns minutos, pareceu uma eternidade confesso, quando a vi, não a reconheci, não era a mesma pessoa, vi as lágrimas no rosto dela e estendi os braços, não me ocorreu mais nada naquele momento.
Ela dá ainda alguns passos e abraça-me com tamanha força que parecia que o fim-do-mundo  tinha chegado.
Ficamos ambos sem palavras, resolvemos entrar no nosso refúgio, a boa notícia era que o nosso lugar, a nossa mesa estava à nossa espera.
Ficamos a olhar um para o outro alguns segundos, mais uma vez pareceu-me uma eternidade, não acreditava no que via, tinha estado com ela há quinze dias atrás e estava tudo bem.
Quebrei o silêncio e perguntei-lhe se queria comer alguma coisa, acenou que sim, pedi o costume, o empregado já sabe o que é da praxe.
Não senti nenhum sabor, previa o pior, estava a fazer um esforço porque suspeitei que ela naquele dia nem tinha tomado o pequeno almoço nem o almoço. Infelizmente acertei.
O diálogo tinha que começar de alguma forma, comecei a fazer palhaçadas, a comportar-me como uma criança, nada.
Tirei os óculos, tirei o relógio e olhei fixamente para ela, alguma coisa tinha que acontecer, o empregado fez o favor de limpar a mesa também ele percebeu que algo não estava bem, dei-lhe as minhas duas mãos e continuei a olhar.
Não sairia dali sem ela me disser e ela já me conhece o suficiente.
Olhei para o relógio, já tinha virado o relógio para ela e disse tenho todo o tempo do mundo. É a minha frase para os amigos e eles sabem disso.
Notei que o ponteiro dos segundos deu alguma dezena de voltas e esperei somente.
As mãos já estavam quentes e pedi-lhe que respirasse fundo e implorei para ela disser.
Ela acabou por ceder e disse, foi como se tivesse dado um tiro e eu tivesse ficado desfeito em mil e um estilhaços, tive vontade de partir o vidro da mesa, mas os estilhaços não chegariam a se comparar com aqueles que saíram dentro de mim com aquela notícia.
Não queria acreditar naquelas palavras: “Sérgio tenho um cancro.”
Agora era eu que tinha ficado sem palavras, não sabia o que disser.
Comecei por lhe fazer perguntas se ela se lembrava de uma dezena de coisas, de coisas que partilhámos os dois, ela acenava que sim.
Comecei por lhe disser os sonhos que ela partilhou comigo, ela acenava que sim.
No fim e já estava confusa, perguntou-me o porquê daquelas perguntas todas? E eu respondi só uma coisa: Não é um cancro que te vai deitar abaixo e juntos venceremos esta doença, ela sorriu e daquele sorriso eu gostei.
Levantei-me e dei-lhe um abraço, mais forte ainda do que aquele que recebi, não com a intenção de a magoar mas porque tinha o maior medo de que aquela doença a roubasse da minha vida também.
Voltamos a nos sentar e a falar do que iríamos fazer, daqui para a frente.
No fim, pediu desculpa e disse que precisava de ir à casa de banho, aproveitei chamei o empregado e paguei, pedi que ficasse com o troco, não queria saber de algumas moedas já tinha em cima de mim o maior peso que podia ter.
Tinha as mãos a tremer e aquela frase não me saía da cabeça, estava morto por dentro.
Via regressar e não queria acreditar que a podia perder...
Pediu se podíamos ir embora, acenei que sim. Já na rua pediu se podia levar o carro dela e ela a casa, mais uma vez acenei que sim.
Levei a casa, não me perguntem como?, e fui incapaz de a deixar sozinha, comemos mais alguma coisa e bebemos um chá. Naquela noite adormeceu nos meus braços e deixei-a a dormir. Ficou a promessa de que amanhã seria outro dia e que estaríamos juntos naquela luta.

Só ontem é que consegui, depois da confirmação, pronunciar e escrever a palavra cancro, essa doença que já me roubou algumas pessoas queridas.

Não é segredo agora e já ficaram a saber o porquê de estar triste nos últimos dias e o meu nome, talvez um dia destes conte como foi a ida ao IPO e como o 1% de esperança foi deixado cair pela palavra do médico e pelo resultado de um exame.

Tenham um bom dia e continuação de uma boa semana para todos.

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